O fim dos hiatos

-Não se leve tão a sério, as pessoas odeiam isso.
-Se leve a sério ou vão te achar só mais um hobbyista.
-Tenha um site, nem que seja um gratuito.
-Você vai queimar seu nome ao ter um desses sites gratuitos. O mercado é ingrato, você vai concorrer com o playboyzinho que foi aos EUA e voltou com uma câmera na mala e agora acha que é profissional, botou anuncio no Groupon e deu um bom pontapé na carreira fotografando books por R$100, enquanto você estará se arrastando pra começar de forma “honesta”. Quer um conselho? Faça uns casamentos, dinheiro rápido. Imite aquele fotógrafo que faz autopromoção descarada dia e noite no Facebook postando TODAS as fotos que faz. Seus anos atrás de uma câmera não contam nada.
-Não, não vá na deles. Isole-se de tudo isso. Exclua seu Facebook. Nada de ter Google+, twitter, Instagram? Tsc ,tsc, você está se contaminando e qualquer pessoa que esteja procurando um artista não vai te levar a sério se você congrega com amadores. Sempre há lugar para a arte.
-Nunca se declare um artista.
-Não pode ter lista de preços no seu site, isso vai te fazer parecer “barato” demais.
-Coloque os preços no seu site, as pessoas não vão se dar ao trabalho de perguntar!! Seus anos atrás de uma câmera não contam nada…

E é assim todo dia, há quinze anos, a mesma ladainha de pessoas entendidas (porque todo mundo acha que entende de fotografia) – com perdão da expressão – cagando regras sobre como devo conduzir minha carreira. E elas são sempre contraditórias. Opinião sobre carreira em fotografia deveria ser igual a gosto: deveria não se discutir, ponto. Cheguei a essa conclusão depois de tanto tempo andando feito barata alucinada de RAID atrás do conselho alheio sobre meu próximo passo. Eu tinha só 17 anos então; tenho 32 agora e cansei de levar vassouradas.

Em 1999, quando comecei, as câmeras digitais estavam começando a ficar populares e ninguém queria saber de um fotógrafo “de filme”, porque nosso preço ficou exorbitantemente alto em comparação. Sem dinheiro pra comprar um equipamento digital decente (sei que muito “profissa” da época  fotografava com Sony Cybershot na cara dura, mas eu nunca fui cara-de-pau) e sem ter como bancar filme e revelação por amor à arte, eu fiz um longo hiato. O primeiro de muitos. E desde então sempre que fiquei sem saber qual rumo tomar na minha carreira, foi o que fiz: um hiato.

Há anos porém sonho em voltar ao filme. Ao contrário da galera hipster, que faz isso pra parecer vintage, pra ter o feel de uma época que nunca viveu mas admira, que tatua a Rolleiflex no pulso e compra filme no ebay, eu queria voltar às minhas origens e recuperar o tempo perdido de evolução em termos de sensibilidade do olhar. Não abandonando o digital, que tem sua hora e lugar (afinal não investi os últimos 7 anos em equipamento e estudo à toa) mas sim pra marcar um breakthrough, o momento em que me rebelo contra as opiniões que me baratinaram ao longo desses 15 anos, e decido ser fotógrafa à minha maneira – decidi buscar esse sonho. Tenho certeza que eu não fui a única aspirante a fotógrafa que ficou confusa num meio onde todos querem rasgar sua identidade e te dar a deles. Acho que confundem liberdade de interpretação da arte com liberdade de projeção psicológica?

Olha, e se eu quiser misturar comercial com artístico? E se eu quiser botar preços pra sessões de retrato no site e no mesmo quiser listar exposições de minhas fotografias naquela galeria chique? E se eu quiser oferecer filme, digital, polaroid e ainda continuar no Instagram? Eu não estou nem aí pro purismo ou pro não-purismo, pras regras inventadas da cabeça de cada um e vendidas como leis da arte – o que quero é deixar a minha visão de mundo por aí, marcada em gravura de luz, como parecer válido para mim. Vai sempre ter quem diga que estou imitando sei lá quem ou que estou fazendo aquilo outro errado. Nunca me defendi, nem vou me defender do que pensam de mim. Minhas fotos porém devem falar, chame-as de arte ou não, goste delas ou não.

Então não haverá mais hiatos. Porque não haverá mais regras, e quem poderá dizer quando eu deveria estar ou não fotografando senão eu e minha vontade e criatividade? Não deveria ter sido sempre assim?

preview do projeto arte das ruas fora do centro

Tenho uma bela EOS 3 que ganhei de presente de aniversário da pessoa mais especial do mundo com 3 rolos de filme pra recomçar <3 Minha fiel cinquentinha básica quebrou num episódio triste, e providencialmente fui agraciada com o financiamento de uma 50mm superior pela mesma pessoa especial <3 Minha Polaroid está em revisão de taxas na receita federal. Meu projeto nas ruas de BH está engatinhando… Tudo nos eixos. O que falta, sinceramente? TEMPO! Só que aí são outros quinhentos, e assunto pra outro post ;)

Respeito KD?

As vezes fico completamente desnorteada com clientes sem noção. Aqueles que não dão o mínimo valor pro meu trabalho; que ignoram completamente a existência de uma pessoa por trás da foto que receberam.

Os casos mais absurdos acontecem. Gente que pega a foto aonde eu pus minha criatividade, esforço e suor, e passa um photoshop nela pra tirar as gordurinhas, joga um airbrush, bota um filtro coloridinho pra usar de avatar do twitter, recorta a foto à reveria da minha escolha de enquadramento, e o pior dos casos – o que me motivou esse post revoltado que escrevo: corta, joga no paint, faz umas bordas pinceladas e escreve o próprio nome em comic sans por cima.

É de dar vontade de pular da ponte mais próxima. Pra quê mesmo estou me matando por essa carreira, hein? E se vou lá reclamar com a pessoa por ela ter deliberadamente alterado meu trabalho, sou a chata, a nazi-fotógrafa, e tenho que ouvir nego discorrer sobre como ‘não se controla direitos autorais na era digital’. Ao que eu saiba, a lei de direitos autorais liga a foto ao autor e protege a obra a partir do momento em que ela foi feita.

Nem sempre tenho o tempo e a energia emocional para sair notificando as pessoas que elas estão desrespeitando meu trabalho. É desgastante. Quando o faço, sou boazinha o suficiente pra oferecer a pessoa que eu faça a alteração que ela precisa, já que ela não ficou satisfeita com meu trabalho. Recebo respostas indignadas e vejo as pessoas retirarem a(s) foto(s) por completo de seus álbuns, desaforadas. Será que antes de acharem que sou ‘mala’ param pra pensar que, ao invés de educadamente pedir, eu poderia processar?

Por quê devo me desculpar por tentar proteger minha obra pra posteridade? Por quê devo pisar em ovos ao dizer à pessoa que a fotografia que fiz passou pelo meu cérebro, minha emoção e minha decisão consciente quanto à luz, exposicão, velocidade, enquadrameto, ângulo, composicão, e portanto me pertence, mesmo quando fui paga para fazê-la?

Esse é um apelo para todos que contratam fotógrafos (não estou falando de quem ‘tem uma câmera e clica’ ok?): nossas fotos são nosso legado e carregam um pedacinho de nós. Para um fotógrafo de verdade, ver sua criação adulterada é como assistir a um filho ser mutilado. O mundo está abarrotado de gente que trabalha como fotógrafo mas não é nada além de impostor (muito fácil na era digital) e tais pessoas não ligam, realmente; não sentem; PORÉM ainda existem clicadores por aí com sensibilidade artística, que poe a alma na ponta do dedo na hora de disparar o obturador. E estes merecem respeito. Tenham noção, por favor.

Bonzinho só se…

Recebi a mensagem de Facebook mais ofensiva que poderia receber em 2011 bem hoje e preciso falar. Não para mandar uma indireta pra alguém que provavelmente não sabe como funciona (e não tem culpa da minha revolta) mas só para fazer umas resoluções novas, ruminá-las e regurgitá-las aqui.

Percebi que as pessoas não entendem que minha fotografia não é um produto, e não sabem o quanto estou disposta a lutar por integridade. Tenho asco quando alteram meus trabalhos. E por isso chegou a hora de usar marcas d’água menos discretas, de botar uma licença creative-commons pra deixar claro que sou autora, de pedir assinatura no papel pra qualquer um que me pedir “uma fotinha só”. Só o leia-me em anexo não serve mais. Não é questão de dinheiro, mas sim de ter o modo como me expresso através das lentes preservado intacto. Chega de ser tão boazinha.

Meu nome e minha visão artística são tudo que tenho. Não ganho pão (leiam: lucro) com isso, e talvez nunca ganhe, mas do RESPEITO eu não abro mão!